Marcelo Mendonça

"E se ela previr que você vai encontrar o caminho de Deus, não duvide. Logo a frente da banca você vai encontrar alguns pastores com a Bíblia nas mãos, fazendo pregações para ninguém, e se esgoelando pra superar o som do novo disco do Dicró".

 

 

 


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Avenida Central
Largo da Carioca.

“Domingo de sol, adivinha pra onde nós vamos? Aluguei um caminhão vou levar a família pra Praia de Ramos”, dizia Dicró nos versos de uma de suas músicas. No domingo pode até ser que ele ainda freqüente o, agora, Piscinão de Ramos, mas durante a semana ele está é batendo ponto no Largo da Carioca, vendendo seu novo CD.
Misturado à toda sorte de artistas mambembes, vendedores, cartomantes, repentistas, pregadores e agentes de empresas de crédito, Dicró fica numa barraca de praia daquelas de nylon do Ponto Frio - que não filtram raio solar algum e você fica como um frango no forno, enrolado no papel alumínio -, autografando seu CD, com direito a um carro de som – um Monza branco pedindo arrego – que anuncia a presença do cantor enquanto toca as músicas do novo CD. O hit de maior sucesso é uma canção que fala de uma menina dadivosa que é chamada repetidamente de “galinha, galinha, galinha”, e depois “piranha, piranha, piranha”. E detalhe: o Monza branco, bem como a barraca de nylon e a mesinha são estruturas de um projeto de apoio aos artistas do Deputado Aguinaldo Timóteo.
Com uma estrutura assim, só mesmo o Largo da Carioca pra abrigar um projeto desta magnitude, o maior circo a céu aberto do Estado do Rio, com certeza.
O Dicró você vai encontrar na margem direita do Largo, próximo à Rua da Carioca, em frente ao antigo relógio, mas se não quiser comprar o CD, dê uma passadinha na banca de jornal dez passos à frente. Lá você vai encontrar, além dos habituais jornais e revistas, um dos maiores acervos de fitas e DVD’s pornográficos em promoção, ou ainda uma listagem com todas as agências de emprego da cidade, que é anunciada pelo sistema de som da banca a apenas R$ 1,00. Com mais R$ 0,50 você ainda pode sair da banca tomando uma Coca-cola caçulinha que, ninguém sabe ainda se está sempre quente porque vende mais – e aí não dá tempo de gelar -, ou se vende mais porque é baratinha. Por esse preço, não dá nem pra questionar a regulagem do refrigerador.
Mais dez passos pra dentro do Largo, caminhando na direção da Avenida Almirante Barroso, você certamente vai encontrar uma roda com a maior concentração de office-boys, desempregados e curiosos do planeta. A atração do centro da roda são uns artistas mambembes que fazem números com chicotes, piruetas e outras coisas mais, sempre com a participação popular. Os números são demoradíssimos e você tem que estar com tempo de sobra pra assistir a toda uma apresentação.
Se ninguém bateu ainda sua carteira numa dessas rodas de apresentação, então separe um trocado pra deixar no pé de uma das estátuas vivas que você vai encontrar ao longo do caminho. E se quiser saber o que destino te prepara, basta se encaminhar para os fundos de uma outra banca de jornal, essa mais próxima ao edifício Avenida Central. Lá você vai encontrar uma cartomante sentada numa mesinha, pronta pra ler a sua sorte. E se ela previr que você vai encontrar o caminho de Deus, não duvide. Logo a frente da banca você vai encontrar alguns pastores com a Bíblia nas mãos, fazendo pregações para ninguém, e se esgoelando pra superar o som do novo disco do Dicró.
Com a alma lavada pelos pregadores e seguindo em direção a Avenida Almirante Barroso, desvie dos agentes de crédito da Ici que, literalmente, atacam os passantes, puxando as pessoas pelo braço. Não é difícil identificá-los porque eles estão uniformizados e andam em grupos. Qualquer problema, peça ajuda aos guardas municipais que ficam numa cabine bem no centro do Largo. Eles estão sempre em maior número que os agentes de crédito.
Passando pela Estação Carioca do Metrô, você vai encontrar uma feirinha de camelôs onde você vai encontrar quase tudo. Mas a maior concentração é numa barraquinha de comida com uma sensacional promoção de um salgado + 1 refresco por apenas R$ 1,00. Do outro lado das barraquinhas há sempre alguém vendendo o proibido chumbinho, que mata e seca o rato e alguns outros artistas que cantam, representam, mas que não têm o apoio do projeto do Timóteo. Sem a barraca de praia e sem o Monza branco, eles tiram partido mesmo é da sombra das trepadeiras do parque cercado do BNDES pra darem os seus recados.
Chegando à Avenida Almirante Barroso, você pode se inscrever no curso de computação no caminhão do Senac. Tem apenas que torcer pra que ele esteja por lá, porque não é sempre. Ou ainda pode admirar a horrenda escultura que enfeia a outra margem do Largo, que mais parece uma chapa enferrujada.
E se você atravessou todo o Largo são e salvo, agradeça a proteção de Santo Antônio por não ter sido descoberto por nenhum repórter das muitas redes de televisão, que sempre estão pelo pedaço fazendo suas enquetes ou seus programas humorísticos, e sempre prontos a registrar o seu mico na frente das câmeras.
E não se esqueça de rezar pela alma de Santo Antônio. Você atravessou o Largo são e salvo, mas ele ficou do outro lado, ouvindo o Dicró e sua menina galinha/piranha.