Paula Máiran

 

 

 

 


Página Inicial


Ponto de (des)equilíbrio

Que é isso, companheiro Gabeira?
Se eu fosse o Lula, nem ficaria magoado com esse seu artigo na Folha...
(Folha de S.Paulo - Fernando Gabeira: Flores, flores para los muertos - 18/06/2005)
Isso a despeito de o texto conter uma cruel comparação do modelo de gestão política do petista com o da ditadura militar.
Só faltava mesmo ao presidente agora ser acusado de violência ideológica pior do que a da tortura física institucionalizada.
Você está certo, Gabeira, em nunca querer aceitar vender sua alma a quem quer que seja, mas quem em algum momento o obrigou, por algum preço ou mesmo de graça, a entregar a sua?
Quem o impediu de escapar às fileiras petistas ainda antes de começar o trabalho enauseante de meter a mão nas privadas do sistema?
Nem sou filiada ao partido dos trabalhadores, e nem nunca trabalhei para este governo, mas creio que seus militantes, os ingênuos e os pragmáticos, merecem mais respeito.
Deve ser mesmo mais prazeroso fazer política nas areias do Posto 9 de Ipanema. Não que isso não seja também importante.
Enquanto o país explode a começar pelos intestinos, melhor que alguém não se esqueça mesmo de se dedicar à defesa das baleias japonesas (sei lá se elas constam no seu corolário de causas, é só exemplo) e dos fumadores de maconha (isto eu sei que está). Não que baleias e maconheiros não mereçam defensores.
Querer, aliás, agir sempre como solitário franco atirador em favor de causas as mais ecléticas é direito do jornalista garantido pelo atual regime, sem risco de levar eletrochoques.
Só não dá agora para botar banca de vestal, num cenário que, sabe-se, jamais o elevaria ao status político de hoje, se você não tivesse aceitado em alguns momentos participar desse jogo, do jeito como sempre foi, sujo, sujo... Tão sujo quanto sedutor e fascinante pelo poder que evoca e proporciona aos seus atores.
Carece de compaixão o artigo, afinal o Lula e seu governo estão hoje na condição de cachorro a quem não falta espancadores ou de Madalena a quem não poupam os apedrejadores, de Ana Bolena com lâmina já a triscar o pescoço.
Mesmo que esteja em condições de atirar pedras, de espancar cães, de fazer funcionar guilhotinas, será preciso escarnecer assim de um parceiro de tantas lutas em comum?
Que é isso, companheiro Gabeira?